Ontem, fui entrevistada por alunas
do curso de Bacharelado em Turismo da UFPE para elaboração de um artigo
acadêmico cujo tema é “assédio e preconceito vividos por mulheres que viajam
sozinhas”. Ambas na casa dos 18 anos, não conseguiam esconder o susto e a
indignação com as histórias ouvidas.
Eu, particularmente, nunca sofri
nada que pudesse ser classificado como violência física. No entanto, são
constantes os comentários maldosos, as cantadas, as insinuações do tipo “por
que uma mulher viajaria só?” e outros constrangimentos, com os quais convivo
nas minhas viagens, dentro e fora do Brasil.
A verdade é que previno ao máximo
qualquer tipo de assédio ou inconveniência. Quando estou só, nunca digo a
ninguém sobre isso. Sempre “tenho amigos
esperando”, “estou hospedada com a família em outra cidade e vim só passar o
fim de semana”, “cheguei uns dias antes que meus familiares”, etc. Resumindo:
sempre recorro a “mentiras do bem” para tentar esconder ao máximo que estou, na
verdade, viajando só.
Sinceramente, acho revoltante e
humilhante ter que mentir para me proteger, gostaria de poder exercer minha
liberdade abertamente e contar com o respeito de todos. Posso estar exagerando,
já me disseram isso, mas, quem se arriscaria???
O caso ocorrido no Equador esse ano,
no qual duas viajantes argentinas foram violentadas e mortas, foi extremo e
emblemático. Levantou sérias questões a respeito da liberdade feminina e da
cultura de culpar as vítimas, uma vez que, foram veiculadas várias insinuações
de que isso ocorreu por “estarem viajando sozinhas”, leia-se “sem companhia
masculina”. Isso gerou revolta entre as
viajantes e motivou uma campanha, na internet, que teve alcance mundial.
Além do assédio, o preconceito
parece ser uma sombra de quem simplesmente gosta de conhecer o mundo de maneira
independente. Já me negaram uma cerveja num bar, em uma capital brasileira,
pois “não serviam mulheres desacompanhadas” e, uma vez, perguntaram “na lata”
se eu bancava minhas viagens com favores sexuais, pois “não haveria outra
explicação para uma mulher estar hospedada sozinha num hotel”.
Sempre digo que, apesar da
minha idade, não sou tão velha para que tudo isso tenha acontecido no século XVIII
e, se ficar enumerando e descrevendo tudo o que já passei e escutei, nessas
duas décadas de estrada, esse texto não termina.
O que ocorre é que ainda há muito a
se conquistar em termos de liberdade, respeito e apoio quando uma mulher decide
ser independente. É uma questão que ainda precisa de muita discussão e de muita
conscientização. Fico imensamente satisfeita por isso estar sendo abordado em
ambientes acadêmicos, acho que pode ser um começo eficaz rumo à educação para o
respeito.
Queridas colegas, espero ter podido
ajudar com o seu artigo e, antes de tudo, espero que juntas possamos melhorar
esse quadro para que, cada vez mais, todos possam exercer seus
direitos de ir e vir, sem medo de mostrar ao mundo quem são ou o que fazem.
Um grande abraço para vocês e muito
sucesso na carreira acadêmica e profissional!
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