Está circulando pela internet um texto chamado “Porque ‘não se preocupe
com dinheiro, apenas viaje’ é o pior conselho de todos os tempos”, que na
verdade é uma tradução de outro texto tirado do site thefinancialdiet.com, que faz algumas críticas ao nosso estilo de vida viajante e tem
inspirado algumas respostas de mochileiros como eu.
Reservo-me ao direito de não replicar o texto todo ou o link, mas faço
algumas citações, com os devidos créditos e as devidas aspas.
O discurso contido nesse texto é bem comum, isto é, o que defende a
acumulação de bens. Respeito muito quem é a favor disso e cujo maior sonho da
vida é ficar rico. No entanto, não entendo a intolerância diante daqueles que
escolheram algo diferente, das pessoas que preferem colecionar experiências a
acumular bens. De maneira alguma faço apologia à ‘beleza de ser pobre’, só acho
que as pessoas são diferentes e tem horizontes diferentes.

Outra coisa que não entendo é por que viajar vai de encontro à segurança
financeira. Vejo que opiniões como as desse artigo são típicas de quem confunde qualidade de vida com capacidade de consumo. O autor cita uma amiga que faz
"um mestrado em uma área que, por muitas razões, provavelmente não irá
guiá-la a um grande emprego". Então, a escolha correta por uma carreira
deve somente levar em consideração as condições de mercado? Fico pensando o que seria da filosofia, das
artes, da pedagogia, ..., ..., se todos
pensassem assim... E, além disso, o mercado de trabalho não é fixo, e uma
carreira que está em alta hoje pode estar desprestigiada amanhã.
Grandes empregos existem em todas as áreas. Mas, voltando ao texto, fica
fácil encontrar nele o pensamento daqueles que repetem os panfletos sem
questionar, dos que acham, por exemplo, que ‘o país para nos feriados’, sem ter
a menor noção de que boa parte do setor de serviços vive justamente dessas pausas
e movimenta a economia como qualquer outro setor, até mais. De acordo com dados
dos IBGE, o setor de serviços representa quase 70% do BIP brasileiro, dentro
dele, o turismo representa 9,6%. Ou seja, aqueles que não obedecem o conselho
dado pelo texto estão contribuindo para o crescimento da mesma forma que
aqueles que escolheram ficar em casa.
Voltando a ‘amiga’ do autor, ele afirma "ela pode aproveitar esse
tipo de liberdade — ser como uma andarilha que ama viajar, estudar pelo prazer
de estudar e de ter longas conversas em bons jantares — porque ela vem de uma
família que tem dinheiro". Para mim, isso é uma falácia! Que bom que essa
pessoa sabe aproveitar o dinheiro que tem, mas a maioria que escolheu essa
vida, o faz simplesmente porque questiona seus próprios planos de consumo. A
maioria é como eu, que não vim de uma família rica e comecei a trabalhar com 15
anos. O que eu fiz para conseguir conhecer quase 30 países foi medir todos os
custos de oportunidade e pensar antes de comprar qualquer coisa, ou seja,
priorizar a experiência. Eu me preocupo
sim, em viver de maneira mais simples o dia-a-dia para gozar de uma liberdade
futura e poder fazer o que eu gosto.

Muitos me perguntam se eu tenho ideia de quantos carros (joias, imóveis,
etc) eu já gastei com as minhas viagens. Bem, isso apenas não me interessa, o
que me importa é que eu fiz exatamente o que me faz feliz e não segui padrões pré-estabelecidos.
Outros dizem que eu pude me dar ao luxo de viajar por que não tive filhos. Isso
é verdade, mas são escolhas, eu escolhi não ter filhos, escolhi não ter carro
(isso mesmo, uso transporte público para me locomover todos os dias) e emprego
meu tempo e meu esforço no que me satisfaz. Respeito muito quem fez escolhas
diferentes das minhas, mas quero minhas escolhas respeitadas. Sei muito bem que escolhas implicam em consequências e cada um deve pesar as suas.
O autor também escreve que nosso estilo de vida "serve ao duplo
propósito de atrair o espectador com uma vida que ele não pode ter, enquanto o
faz se sentir como um derrotado por não conseguir alcançar esse patamar."
Quer dizer então que eu tenho que ser infeliz para acompanhar os infelizes?
Quer dizer que, se muitas pessoas mantêm um emprego que odeiam, eu também tenho
que fazê-lo? Come on! Melhore! Gosto de viajar e gosto de compartilhar minhas
experiências com outros viajantes, só isso, faço por prazer, não para despertar inveja. Na verdade, já recebi várias mensagens de pessoas dizendo que eu as inspirei e que elas começaram a viajar e estão bem felizes...
Para terminar eu deixo um conselho. Sim, se preocupe! Preocupe-se em
planejar bem sua vida! Se você não gosta de viajar, não o faça. Aliás, não faça
nada que lhe desagrade só porque isso é uma tendência ou um padrão. Todos temos obrigações, mas não somos obrigados a tudo.
Mas, se você é como eu e ama viajar, preocupe-se em planejar bem sua viagem,
seu orçamento! Preocupe-se em priorizar suas experiências e tenha em mente que
muito pouca coisa é definitiva, que, se você der uma pausa na sua vida para
viajar, o mundo estará no mesmo lugar quando você voltar. Em tempo, pode ser
que o mundo seja o mesmo, mas você certamente estará em outro patamar de
evolução!
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